terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O bem e o mal



Osho, você disse que todas as crianças nascem como um Deus, contudo, meus dois filhos são bastante diferentes desde que nasceram. Um é sereno e muito bonito,
mas a outra já parecia perturbado antes mesmo de ser influenciado por qualquer condicionamento.
Como devo lidar com essa criança difícil?


Isto levanta uma questão básica.
A existência em si é divina -
De onde vem então o demônio?
De onde vem o mal, o moral,
o inaceitável?

O bom está certo
Porque nós fizemos dele sinônimo de Deus -
Bom significa Deus.
Mas de onde vem o mal?
Isto tem confundido a humanidade há muito tempo.
Por mais que voltemos atrás,
Este problema sempre existiu na mente humana.

A solução é lógica,
A solução que a mente pode dar, é dividir a existência, criar uma dualidade,
É dizer que existe Deus, aquele que é bom,
E existe o diabo, o demônio, belzebu, satã, aquele que é ruim.

A mente pensa que o problema está resolvido -
Tudo que é mau vem do diabo
E tudo que é bom vem de Deus.
Mas o problema não está resolvido;
Só foi um pouco afastado.
O problema permanece o mesmo.
Você o afastou um passo, mas não resolveu nada -
Então, de onde vem o demônio?
Se Deus é o criador,
Então deve ter criado o demônio em primeiro lugar,
Bem no princípio -
Ou Deus não é o supremo criador.

E o demônio sempre existiu
Como o inimigo, como a força antagônica -
Então ambos são eternos.
Se o demônio não foi criado,
Não pode ser destruído,
E assim o conflito continua eternamente.
Deus não pode vencer -
O demônio estará sempre causando distúrbios.

Isto não é o problema para os teólogos cristãos,
Ou para a teologia muçulmana ou zoroastriana,
Porque todas estas três teologias
Seguiram a solução simples sugerida pela mente
Mas a mente não pode solucionar isto.

Há uma outra possibilidade
Que não vem da mente
E será difícil que a mente a entenda.
Essa possibilidade surgiu no Oriente,
Particularmente na Índia;
Essa possibilidade é:
Não há nenhum demônio, não há dualidade básica -
Só existe Deus; não há nenhuma outra força.

É isto que significa advait, a filosofia não-dual;
Só existe Deus.
Mas nós vemos que o mal existe.

Os hindus dizem
Que o mal existe na sua interpretação,
E não em si mesmo.
Você o chama de mal porque não pode entendê-lo,
Ou porque está perturbado por ele.
É a sua atitude que o faz parecer mau.
Não há nenhum mal. O mal não pode existir.
Só existe Deus, só o Divino existe.

Agora considerarei o seu problema sobre estas bases:
Duas crianças nasceram - uma é boa a outra é má.
Por que você chama uma de boa?
E por que diz que a outra é má?
A realidade é essa mesma
Ou é apenas interpretação sua?

Qual é a criança boa - e por quê?
Se ela é obediente, é boa;
Se é desobediente, é má.
A que o segue é boa e a que resistir é má.
Tudo o que você diz, uma delas aceita;
Se diz: Sente-se em silêncio - ela se senta.

Mas a outra tenta desobedecer, tenta rebelar-se -
Esta é má.
Isto é interpretação sua.
Você não está dizendo nada sobre a criança;
Está dizendo algo sobre a sua mente.

Porque a obediente é a boa?
Na verdade, os obedientes nunca são brilhantes,
Nunca são muito radiantes,
Geralmente são insípidos.
Nenhuma criança obediente tem sido um grande cientista
Ou um grande religioso, ou um grande poeta -
Nenhuma criança que seja obediente.
Só os desobedientes se tornam grandes inventores, grandes criadores;
Só os rebeldes transcendem o velho,
Chegam ao novo e penetram no desconhecido.

Mas, para o ego dos pais,
O obediente é considerado bom -
Porque isso ajuda o ego.
Quando a criança o segue, seja lá no que for que diga,
Você se sente bem;
Quando a criança resiste e nega, você se sente mal.

Mas uma criança realmente viva será rebelde.
Porque deveria seguí-lo?
Quem é você? E por que ela deveria obedecê-lo:
Só porque é o pai?
O que você faz para ser um pai?
Você é apenas uma passagem -
E isso também é bastante inconsciente.

O seu sexo não é um ato consciente -
Você é empurrado por forças inconscientes para dentro dele.
A criança foi só um acidente: não era uma expectativa sua;
Você nunca esteve conscientemente atento
A quem estava convidando para vir.
A criança chegou de repente como um estranho.
Você assumiu a paternidade, mas não é o pai.

Quando digo que você assumiu a paternidade,
É uma coisa biológica.
Você não seria necessário -
Até uma seringa poderia ter feito isto.
Mas você não é o pai porque não está consciente.
Não fez um convite,
Não pediu para que uma alma particular
Entrasse no útero de sua esposa, de sua bem amada.
Você não trabalhou para isto.

E quando a criança nasce...
O que você faz para isso?
Quando diz que a criança deve obedecê-lo,
Está suficientemente seguro de que sabe a verdade
Para que ela o siga?
Está suficientemente seguro e certo
De que compreendeu alguma coisa
Que a criança deve seguir?

Você pode se impor sobre a criança
Porque ela é fraca e você é forte.
Esta é a única diferença entre vocês dois.
Mas você é tão infantil, tão ignorante -
Ainda não cresceu, não amadureceu.
Sente raiva assim como a criança,
Sente ciúmes como a criança,
E se entretém com brinquedos
Exatamente como ela -
Seus brinquedos podem ser diferentes,
Um pouco maiores, mas só isso.
O que é a sua vida?
O que você alcançou?
Que sabedoria conseguiu
Para que a criança o siga
E diga sim a tudo o que você diz?

Um pai estará consciente disso:
Não forçará nada sobre a criança.
Pelo contrário, permitirá que a criança seja ela mesma,
Auxiliará para que ela seja ela mesma.
Dará liberdade à criança,
Porque se ela sabe alguma coisa, tem que saber
Que o interior só cresce através da liberdade.
Se ele experimentou qualquer coisa em sua vida,
Sabe muito bem que a experiência precisa de liberdade -
Quanto maior a liberdade, mais rica é a experiência.
Quanto menor a liberdade... não há possibilidade de experimentar.
Se não houver liberdade nenhuma,
Então você terá experiências imprestáveis, imitações, sombras,
Mas nunca algo real, nunca o autêntico.

Ser pai de uma criança significa
Dar a ela liberdade cada vez maior,
Torná-la cada vez mais independente,
Permitir que se mova no desconhecido -
Onde você nunca esteve.
Ela o transcenderá, estará à sua frente,
Ultrapassará todos os limites que você conheceu.
Ela precisará ser auxiliada, mas não forçada,
Porque se você começar a forçar
Estará matando, estará assassinando a criança.

O espírito necessita de liberdade -
Cresce em liberdade e somente em liberdade.
Se você é realmente um pai,
Sente-se feliz quando a criança é rebelde.
Nenhum pai quer matar o espírito da criança.

Mas vocês não são pais.
Estão doentes de seus próprios males.
Quando você força uma criança a segui-lo,
Está simplesmente dizendo
Que quer dominar alguém.
E como você não pode fazer isso no mundo,
Pelo menos você pode dominar, possuir
Essa pequena criança.
Você está sendo um policial para a criança.

Quer satisfazer certos desejos insatisfeitos
Através da criança - dominar, ser ditador.
Pelo menos pode ser um ditador para a criança;
Ela é tão fraca, tão jovem e indefesa.
Depende tanto de você,
Que pode forçá-la a qualquer coisa.
Mas pela força você a estará matando.
Não estará fazendo com que ela nasça, estará destruindo-a.

E a criança que obedece parece boa -
Porque está morta.
A que se rebela, parece má -
Porque está viva.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Rebeldia



Uma pessoa inteligente é rebelde. A inteligência é rebeldia.

Uma pessoa inteligente decide por sua própria conta se irá dizer não ou sim.



Não pode seguir as tradições, não pode continuar venerando o passado. Não há nada a venerar no passado.


Uma pessoa inteligente deseja criar um futuro, deseja viver no presente. Sua vida no presente é sua forma de criar o futuro.



Osho, em "Osho de A a Z: Um Dicionário Espiritual do Aqui e Agora"


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Transformação

Um mestre de Zen não é simplesmente um professor. Em todas as religiões, há apenas professores. Eles ensinam a respeito de assuntos que você não conhece, e lhe pedem para acreditar no que dizem, porque não há jeito de transformar essa experiência em realidade objetiva. O professor tampouco as vivenciou - ele acreditou nelas, e transmite a sua crença para outras pessoas.

O Zen não é o mundo do crente. Não é para fiéis; o Zen é destinado àquelas almas ousadas que são capazes de desfazer-se de toda crença, descrença, dúvida, razão, mente, e mergulhar simplesmente na sua existência pura, sem fronteiras.

Ele traz, porém, uma transformação tremenda.

Permitam-me, portanto, dizer que, enquanto outros caminhos estão envolvidos com filosofias, o Zen está envolvido com metamorfose, com uma transformação. Trata-se de uma alquimia autêntica: o Zen transforma você de metal comum em ouro. Mas a sua linguagem precisa ser entendida, não com o seu raciocínio e o seu intelecto, mas com o seu coração amoroso. Ou até mesmo simplesmente escutar, sem se importar se é verdade ou não. Um momento chega, repentinamente, em que você enxerga aquilo que não percebeu a vida inteira. De repente, abre-se aquilo que o Buda Gautama denominou "oitenta e quatro mil portas".

Osho, em "Zen: The Solitary Bird, Cuckoo of the Forest"

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Reinterpretar o Eu



Se deixarmos o passado sem o curar, ele irá destruir as nossas vidas. O passado esconde o nosso dom, a nossa criatividade e os nossos talentos.


Fomos ensinados que é difícil ir atrás dos nossos sonhos. E não nos disseram que é ainda mais difícil viver cada dia sabendo que não estamos a viver os nossos sonhos.


Se não tivermos a coragem de fazer as pazes com o nosso passado, iremos sempre transportar ás costas a raiva, o ressentimento, a culpa, a impotência, a vergonha e o medo.


O poder para fazer as pazes com o passado está já dentro de si, mas só irá surgir quando você estiver preparado e desejoso de fazer as mudanças na sua vida. Quando o desejo de mudar for mais forte que o desejo de querer manter tudo como está. Claro que é sempre mais fácil culpar os outros pela situação que estamos a viver agora, neste momento.


Tem que estar preparado para abraçar o passado se quiser fazer verdadeiras mudanças no seu presente. O nosso passado é o que dá forma ao que vemos, ao que dizemos e à maneira como vivemos.


Saiba que os preconceitos são passados de geração em geração, de maneiras muitas vezes subtis. A dor também é passada de geração em geração. O medo, a vergonha, a culpa, a impotência, também são passados de geração em geração. Não sei se já tinha mencionado: o medo é passado de geração em geração. Os seus problemas actuais são seus, ou herdou-os?


Muitas pessoas decidiram já que não seriam como os seus pais! Mas temos que ter sempre presente que passamos os anos mais importantes da nossa aprendizagem a absorver os conhecimentos e comportamentos dos nossos pais. Todas as suas qualidades e defeitos.


Saiba que todos os eventos negativos da sua vida são na verdade bênçãos disfarçadas de problemas. A dor tem um propósito. Ensina-nos e guia-nos a níveis mais elevados de consciência.


Há um ditado chinês que diz “O mundo é um mestre para o homem Sábio, e um inimigo para o louco”. Nenhum evento é doloroso em si. É tudo uma questão de perspectiva. É importante saber que tudo o que acontece no mundo acontece porque tem que acontecer, e é perfeito na forma como acontece. Não há erros. Não há acidentes. O mundo é um paraíso e um inferno. Qual a sua perspectiva?


Não há ninguém neste mundo que diga o que eu digo da maneira que o digo. Ninguém neste mundo faz as coisas que eu faço na forma exacta em que as faço. Eu sou eu e tu és tu. Cada um de nós é único e cada um de nós tem um caminho especial a percorrer.


Por forma a ganhar sabedoria e liberdade do seu passado, tem que aceitar total responsabilidade por todos os eventos que ocorreram na sua vida. Aceitar a responsabilidade significa afirmar: “Fui eu quem fez aquilo.” Há uma grande diferença entre o mundo fazer-lhe coisas a si e você fazer coisas a si mesmo. Quando aceita a responsabilidade pelos eventos na sua vida, e pela sua interpretação desses eventos, sai do mundo da criança e entra no mundo do adulto. Ao aceitar a responsabilidade pelas suas acções e inacções , você desiste da sua história pessoal (que é sempre qualquer coisa à volta de “Porquê eu?”) e transforma-a em “Isto aconteceu-me porque eu precisava de aprender uma lição. Isto faz parte da minha caminhada”.


De acordo com Nietzsche, desejar que o nosso passado não tivesse acontecido é desejar que nós não tivéssemos acontecido. É praticamente impossível mudar de direcção na nossa vida sem antes fazer as pazes com o passado. Cada evento significativo da nossa vida muda a forma como interpretamos a própria vida, e a perspectiva que temos dela.


A ideia de revisitar o passado pode parecer aterradora, mas é uma parte essencial do processo. O nosso passado é uma bênção que nos pode guiar e ensinar, e transporta consigo tantas mensagens negativas como positivas.


A nossa dor pode ser o nosso melhor mestre. Irá levar-nos a lugares que nunca teríamos a coragem de ir de outra maneira. Quantas pessoas estariam dispostas a sofrer durante 20 ou 40 anos só para descobrir a vontade da sua alma?


Aceitar a responsabilidade total pelo nosso passado é uma tarefa avassaladora. A maioria de nós está preparada para aceitar responsabilidade pelas coisas boas que nos aconteceram, mas resistimos aceitar a responsabilidade pelas coisas más que foram sucedendo. Mas quando aceitamos a responsabilidade total por todos os eventos, tornamo-nos mais fortes com cada evento ocorrido. Mesmo que nos sintamos envergonhados ou magoados por qualquer evento, podemos encontrar paz no saber que de alguma forma o evento está a ajudar-nos a descobrir o nosso dom. Tornamo-nos responsáveis por tudo o que acontece. Dizemos ao Universo: “Eu sou a fonte da minha própria realidade!” Este é o lugar de poder a partir do qual pode alterar a sua vida.


Enquanto não for capaz de olhar o seu passado olhos nos olhos, ele estará sempre por perto, trazendo-lhe mais experiências em tudo iguais ás do passado. Mas tudo o que precisa é de uma mudança na sua perspectiva.


Para alterar a nossa percepção precisamos de encontrar cada momento do nosso passado até encontrar uma interpretação poderosa que nos permita aceitar a responsabilidade. Não faz ideia da energia que gasta para provar a si mesmo que tem razão e que não foi ‘culpa’ sua! É claro que é sempre mais fácil culpabilizar os outros pelas coisas que não gostamos no nosso mundo.




Há sempre dor quando somos vítimas das circunstâncias: a dor do desespero e do desalento. Mas você vive num universo onde tudo acontece por um motivo. Procure a bênção em todos os eventos da sua vida e irá dar por si no caminho da gratidão. Irá ter a experiência do que é ser-se abençoado.


Cada palavra, incidente e pessoa em relação à qual ainda sente existir uma carga emocional tem que ser estudada, olhada na cara, reconstruída, re-perspectivada e abraçada. Temos que caminhar até à origem da nossa dor. E tomamos as rédeas da nossa vida ao escolhermos as nossas interpretações.


Ao inventarmos uma nova interpretação estamos a utilizar a forma mais simples de transformar uma experiência negativa em outra, positiva. Tudo o que acontece no nosso mundo é objectivo. Não possui um significado inerente. Mas cada um de nós vê o mundo com um olhar diferente, sendo que cada um irá atribuir um significado diferente a dado evento. É a nossa percepção e interpretação que afecta as nossas emoções, e não o incidente em si. É a nossa percepção e interpretação quem nega a nossa responsabilidade e atribui as culpas.


Cada um de nós tem que tomar uma decisão consciente de alterar o nosso mundo, alterando as nossas percepções. Mude a percepção, a interpretação, de uma palavra ‘má’ apenas, e irá descobrir que não só a palavra perde a sua carga emocional, como esta carga lhe é devolvida com poder.


Autor: Emidio Carvalho
http://asombrahumana.blogspot.com/

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Mais traz mais



Normalmente, um relacionamento sempre perturba. A não ser que você seja capaz de permanecer só, um relacionamento sempre perturba.


Ele é quase como um banqueiro. Se você tiver dinheiro, o banqueiro irá oferecê-lo a você. Se você não tiver, ele não lhe dará dinheiro. Quando você tem, todo mundo está pronto para lhe ajudar; quando você não tem, ninguém está disponível! Assim, os bancos continuam dando dinheiro às pessoas que são ricas.


Com os relacionamentos, é exatamente o mesmo caso. Se você está feliz, o relacionamento a fará mais feliz. Se você está feliz sozinha – o que significa que você não está precisando de um relacionamento – somente assim um relacionamento lhe dará felicidade. Se você está precisando dele, então você se tornará miserável – porque toda dependência traz miséria.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A construção de uma personalidade oculta




Cada um de nós possui uma herança psicológica que não é menos importante que a nossa herança biológica. Esta herança inclui um legado sombrio que nos é transmitido através do ambiente cultural da nossa família. Somos, inicialmente, expostos aos valores, temperamentos, hábitos e comportamentos dos nossos pais e irmãos. Com bastante frequência, os problemas que os nossos pais foram incapazes de resolver por eles próprios vêm até nós sob a forma de padrões de adaptação disfuncionais.

A nossa família é o teatro onde nós actuamos com a nossa individualidade e os nossos desejos. É o nosso centro gravitacional emocional, o lugar onde começamos a adquirir e a desenvolver o nosso carácter, sob as influências das personalidades variadas que nos rodeiam (pai, mãe, irmã, tio...).

Na atmosfera psicológica criada pelos nossos pais e irmãos, educadores de infância e todas as outras fontes importantes de amor e aprovação, cada um de nós, crianças, dá início ao processo necessário do desenvolvimento do ego. A adaptação do ser humano à sociedade exige a criação de um ego – um “eu” - que sirva como princípio da nossa consciência em crescimento. Este desenvolvimento do ego depende em grande parte da repressão daquilo que consideramos ‘mau’ ou ‘errado’ em nós, enquanto tentamos identificarmo-nos com aquilo que é ‘bom’. Isto dá à personalidade em desenvolvimento uma vantagem estratégica na eliminação de qualquer ansiedade e, em simultâneo, ganhar tantos aspectos positivos quanto seja possível. O processo de desenvolvimento do ego continua até por volta dos quarenta anos de idade, sendo modificado de acordo com experiências e influências externas, à medida que interagimos com o mundo.

Mas à medida que o nosso ego cresce e se mostra ao mundo, a nossa sombra, os aspectos que escondemos para agradar aos outros, também cresce e desaparece nos recantos do nosso subconsciente. O “Eu Deserdado” é um produto resultante do processo de desenvolvimento do ego. Eventualmente este “eu deserdado” torna-se a imagem do ego reflectida no espelho. Nós deserdamos tudo aquilo que não se conforma com a nossa imagem de quem somos, criando assim uma sombra. E devido à necessidade do ego de criar um aspecto único de si (ou é bondade ou maldade, bonito ou feio, egoísta ou altruísta), todas as qualidades que são rejeitadas, negligenciadas e inaceitáveis em nós acumulam-se inconscientemente na nossa mente e tomam a forma de uma personalidade inferior – a sombra.

Contudo, aquilo que deserdamos não desaparece. Vive plenamente dentro de nós – longe da nossa consciência e da nossa razão – tão real como a nossa certeza de sermos um individuo. Um outro ego (alter ego) que se esconde imediatamente abaixo da nossa consciência. Com regularidade este aspecto rejeitado imerge como a lava de um vulcão que explode depois de milhares de anos sob pressão, normalmente quando nos encontramos distraídos, ou sob uma enorme pressão emocional. “Não sei onde tinha a cabeça!” dizemos nós. Ou “não fui eu! Jamais faria isso!” ou a mais tradicional “O diabo em figura de gente!”. Isto são os eufemismos utilizados pelos adultos para explicar o comportamento do alter ego, ou “outro eu”.

Assim, o ego e a sombra encontram-se num antagonismo perpétuo e que é a base de toda a mitologia: a relação entre dois irmãos, o bom e o mau. Representações simbólicas do ego e do alter ego. Se pegarmos nestes irmãos, no representante da bondade e da maldade, e os juntarmos teremos um todo completo. Da mesma maneira, quando o ego abraça a sua sombra nós conseguimos o sentimento de plenitude, a totalidade que sempre fomos.

Nos primeiros anos de vida, todos nós estamos isentos da capacidade de filtragem consciente. Assim, a nossa aprendizagem, em termos de comportamento social, é muitas vezes ambígua e muito solta. Podemos observar a criação da sombra num infantário, enquanto as crianças brincam, e a forma como esta sombra é reforçada pelos adultos à volta. Ninguém consegue ficar indiferente à maldade e crueldade que uma criança é capaz de manifestar enquanto brinca. Quando sentimos a necessidade de intervir fazêmo-lo muitas vezes de maneira espontânea. Naturalmente, instintivamente, não queremos que as crianças se magoem. Mas também queremos que a criança “deserde” as acções e sentimentos que nós próprios deserdamos, por forma a que a criança se insira no ideal adulto da brincadeira mais apropriada. Como se isto não bastasse, projectamos na criança que “se porta mal” aquilo que rejeitámos previamente em nós mesmos. Se a criança obedecer, irá ela própria deixar de se identificar com estes impulsos “negativos” para agradar ao adulto e obter aprovação.

As sombras dos outros estimulam um esforço moral continuado na criança à medida que vai desenvolvendo o seu ego e a sua sombra. Aprendemos, enquanto crianças, a esconder tudo o que sucede um pouco mais abaixo da nossa consciência. Isto para que os adultos nos vejam como “bons” e para que sejamos aceites com afecto pelos adultos à nossa volta.

A projecção – a transposição involuntária de tendências inconscientes inaceitáveis para objectos, animais e pessoas – funciona como uma ajuda ao ego frágil em desenvolvimento, na sua busca incessante de aprovação.

Ninguém gosta de admitir possuir um lado escuro. As pessoas que acreditam que o seu ego representa a totalidade de quem são, e que desconhecem ou não querem conhecer a totalidade de quem são na verdade, irão projectar as partes rejeitadas no mundo à sua volta.

Mas o oposto também pode acontecer. Quando a criança se apercebe que nunca poderá atingir as expectativas dos adultos à sua volta, poderá dar início a comportamentos inaceitáveis e tornar-se no bode expiatório para as projecções das sombras dos adultos à sua volta. A ovelha negra de qualquer família é o responsável, inconsciente, de transportar a sombra da própria família. Poucas famílias conseguiriam funcionar sem uma ovelha negra.

Sylvia Brinton Perera, no seu livro “The Scapegoat Complex”, afirma que o adulto identificado como a ovelha negra é, normalmente, por natureza um indivíduo sensível a estados emocionais inconscientes. Ou seja, a criança mais sensível é, regra geral, a que mais tarde irá carregar a sombra da família.

O próprio Jung deixa um exemplo claro desta projecção e de como pode afectar qualquer família. Conta a história de um homem muito religioso o qual nunca tinha pecado ou feito mal a quem quer que fosse na sua vida. Era um homem extremamente honesto e sentia repudia por qualquer acto moralmente incorrecto. Com um pai assim é fácil compreender que o seu filho se tornasse um ladrão e a filha uma prostituta (o motivo que levou o homem a procurar a ajuda de Jung). Uma vez que o pai se recusava a abraçar a sua própria sombra, a sua parte na imperfeição humana, os seus filhos eram compelidos a vivenciar o seu lado escuro ignorado.

Para além dos padrões existentes nas relações pais-filhos, há outros eventos que adicionam complexidade ao processo da construção da sombra. À medida que o ego da criança se torna mais consciente, uma parte de si cria uma máscara – ou persona – que é a face que mostramos ao mundo, a qual representa aquilo que a criança quer que os outros pensem que é. Esta persona vai de encontro ás exigências pedidas pelo ambiente e cultura que rodeiam a criança. Assim, o ideal de ego vai de encontro ás expectativas e valores do mundo onde a criança cresce. Mas por detrás deste ego, a sombra faz o seu trabalho de contenção.

Todo o processo de desenvolvimento de ego e persona é uma resposta natural ao nosso meio ambiente e é influenciado pela comunicação com a nossa família, professores e religiosos, através da sua aprovação ou reprovação, aceitação e vergonha.

As sombras dos membros da família têm uma influência muito forte no desenvolvimento do “Eu Deserdado” da criança. Isto é ainda mais verdade quando os elementos sombrios não são reconhecidos pelos respectivos membros da família, ou quando estes colidem na tentativa de esconder a sombra de um membro da família que seja mais fraco, ou mais forte, ou mais amado.


Um dos maiores perigos, quando a criança começa a desenvolver a sua sombra, encontra-se nas famílias disfuncionais, negativas, abusivas, ou, inversamente, certinhas, correctas, convencionais, preconceituosas. Em ambos os casos as famílias irão alimentar uma sombra carregada de vergonha, medo e culpa.

A construção da sombra é inevitável e universal. Ela torna-nos quem somos e pode levar-nos ao trabalho da sombra, obrigando-nos a abraçar a totalidade de quem somos e, assim, a libertar-nos. Ao trabalharmos a nossa sombra temos uma possibilidade real de sermos a totalidade que sempre fomos.

Autor: Emidio Carvalho
http://asombrahumana.blogspot.com/

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Repressão

Repressão significa viver uma vida que não é o seu destino. Repressão é fazer coisas que você nunca quis fazer. Repressão é ser uma pessoa que você não é. É uma forma de se autodestruir.

Repressão é suicídio, um suicídio lento, é claro, mas certamente um lento envenenamento.

Expressão é vida, repressão é suicídio. Não viva uma vida reprimida, do contrário você não viverá. Viva uma vida de expressão, criatividade, alegria. Viva de forma como a existência desejou que você vivesse: da forma natural.

Ouça seus instintos, ouça seu corpo, seu coração, sua inteligência. Dependa apenas de si mesmo, vá aonde quer que sua espontaneidade o leve, assim você nunca estará perdido.

E, seguindo espontaneamente sua vida natural, um dia você acabará chegando às portas do divino.

Osho, em "Osho de A a Z - Um Dicionário Espiritual do Aqui e Agora"
Imagem por Migraine Chick